22 janeiro 2010

Meu, avisa Deus que o pessoal já se arrependeu! Manda Benção agora!


Muito se tem falado sobre o Haiti. Tanto para o mal como para o bem. É normal, diante de uma tragédia, ouvirmos uma verborréia desenfreada de discursos inflamados. Uns promovendo a compaixão (humanista ou não), outros aproveitam para mostrar um Deus soberano sobre as situações, ainda há os que desconversam ou tentam provar que Ele não existe (como o argumento tosco da jornalista Cora Rónai que disse: "No Haiti, Deus prova mais uma vez que não existe”; – ela argumentando que o que não existe está provando sua não existência – pelo simples fato do sujeito provar algo, ele [ou Ele] tem de existir para a sentença ser correta). Há ainda quem tenta defendê-Lo (como se necessário fosse), diluindo Sua justiça com água, enquanto outros querem direcionar as ações deste Deus. Isto posto, levando em consideração que a maioria das proposições acima são negativas, eu me pergunto: Que Deus esse povo segue? Ou conhece? Ou desconhece? Não vou falar mal dos opinantes, nem de opiniões atéias, mas reflitamos sobre o cerne de algumas posições pseudo “cristãs” um tanto estranhas.
Primeiro ponto: Deus criou o mundo, mas nos entregou e agora somos os únicos responsáveis por estas tragédias! Será?
Deus é Deus. E pelo “mínimo divisor comum das doutrinas” dos Atributos de Deus, pregadas pelo Brasil, concorda-se que: Ele é Onipotente, Onisciente e Onipresente. Se você for ortodoxo, liberal, fundamentalista, arminiano, romanista, neo-ortodoxo pode não gostar da minha argumentação, pois não agitarei bandeiras nem rótulos. Mas a bíblia afirma que Deus é Soberano sobre tudo, sendo assim: Deus sabia que haveria este terremoto; Deus estava lá livrando alguns, “chorando” ao lado de outros; e sim, Ele poderia ter impedido a tragédia, pois Quem conta meus fios de cabelo pode evitar ou provocar um terremoto. Mas, como disse Barth: “Deixe Deus ser Deus!”. Ele está no controle de tudo. E afirmo que a terra que tremeu não O pegou desprevenido, pois não poderia tremer sem Sua permissão. Dúvidas sobre o porquê? Pergunte a Ele diretamente um dia. Não é por ter questões que não sei responder (isso assumo), que passarei a teologar sobre pressupostos e especulações contrários ao ensino das Escrituras em sua totalidade. Só sei dizer que como um vaso de barro (criatura) não posso questionar o Oleiro (Deus) perguntando o por que me fez assim, fez isso e aquilo outro; muito menos questionar a organização e manutenção do seu atelier (mundo). Os caminhos do Criador e Mantedor de tudo e todas as coisas criadas, Aquele que tem misericórdia de quem quiser é sobremodo mais elevado que o meu, sendo impossível perscrutar Sua mente.
Segundo ponto: Deus castigou os haitianos porque suas práticas que O desagradavam. Será?

Não foi vingança. Tem um pessoal doente que crê que Deus está só esperando o momento de matar os pecadores, quando Ele deseja que seus eleitos se arrependam. Outros ainda não entenderam direito a doutrina do pecado. Em Adão, todos pecaram. Não existe um justo. A pessoa que pousa de santinho e sabe a bíblia de cor (mesmo não a praticando), que se separou do furto, do homossexualismo, da mentira, dos vícios ou sei lá do que; deveria se separar igualmente do orgulho. Este “crente padrão” não é melhor que nenhum “ímpio”. O sol nasce para todos, assim como as chuvas e tempestades. Certo é que há dois tipos de pessoas no mundo: as pecadoras e as pecadoras arrependidas. Todos pecaram. Mesmo tendo sido perdoado de meus pecados, dia a dia eu peco. E sobre mim digo que: o avião da TAM deveria cair na minha cabeça, o Tsunami vir e levar só a mim, um terremoto abrir a terra e me engolir e as enchentes detonarem minha casa. Por quê? Porque sou um grande pecador. Mas Jesus que tirou o pecado (singular) do mundo é o meu advogado quando eu peco (plural). Dependo de Sua misericórdia (oiktirmos) para sobreviver dia após dia, e Ele é fiel (pistia) em me dar graça (charis). O que faz algum professo cristão achar que é melhor que um negro, pobre, adepto do vodu, pedófilo e qualquer outra coisa? É sério, tem gente que acha isso! Pior, crê que é melhor e labora no erro não entendendo nada sobre o amor que Ele veio nos ensinar. Eu não sou melhor que ninguém. Faço coro com Paulo: sou o pior dos pecadores... Esses, são o tipo de pessoas que evangelizam, geralmente em duas assertivas errôneas: 1 venha para Jesus e seus problemas vão acabar; e 2 se você não quiser ir para o inferno venha para Jesus. Colocam as consequências futuras na frente das causas primárias e imediatas.

Vejamos algo sobre a ira (orgē) de Deus em Tessalonisences. Paulo apresenta duas iras, uma futura e outra presente. Muitos advogam que essas catástrofes são a ira presente. Vamos entender. Ira futura é a condenação final. Esta consiste naquela ira a qual os eleitos de Deus não foram destinados (conforme 1Ts 5.9: “porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo”). Como, se todos estão destituídos da glória de Deus e condenados em nossos pecados, escapamos desta ira? Simples, Paulo diz “que Jesus é Aquele que nos livra da ira futura” (1Ts 1.10b). Através dEle, os chamados são livrados da ira. E a ira presente? Romanos 1.18 nos dá uma dica: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça”. Estes que detêm a verdade (ou se opõem ao evangelho) são pelo contexto os judeus de sua época. Mas o princípio pode ser aplicado aos dias de hoje.

E como se revela esta ira? Com o solo se abrindo ou fogo do Céu como no Antigo Testamento? Não, pois o modo difere um pouco nesta era de Graça. Vejamos como a ira de Deus se manifesta aos que se rebelam contra Ele e não se arrependem: “Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si” (Rm 1.24). O modo de Deus “despejar” Sua ira é tornando os que não se arrependem em pessoas mais imundas, dominadas pelos desejos do coração, para desonra. É um endurecimento que faz com que os rebeldes se tornem cada vez mais culpáveis, os que estão se santificando mais justos; tudo para que Sua Glória resplandeça mais e mais. Paulo, ao fim de Romanos cita Deuteronômio 29.4 e Isaías 29.10: “Deus lhes deu espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até ao dia de hoje” (Rm 11.8). Ou seja, a maior demonstração de ira da parte de Deus é o endurecimento dos que O rejeitam, não permitindo que possam se arrepender – destinando-os para a ira eterna – os fazendo oposto do pecador justificado, conforme 1Tessalonisences 1.10 e 5.9. Isso não há como negar, seja você arminiano ou calvinista, alguns serão castigados eternamente e outros serão plenamentes redimidos. Mas não com uma “limpeza moral” através de desastres naturais.
Terceiro ponto: Deus não castiga ninguém! Todos serão salvos, pois Ele é Amor! Será?
Deus é justiça (dikaiosyne)! Ele é Amor, É Benigno, É Bondoso e É Misericordioso. Mas também é Justo. E o que está por trás desta palavra, além do sentido óbvio de ser imparcial é de alguém que aplica o juízo. A Deus cabe o juízo, a Ele a vingança. Agora, argumentar que Aquele que deu o seu Único Filho, em amor, em sacrifício por nós pecadores; iria praticar o juízo antes da hora, matando inocentes, deve: ou estar vivendo nos tempos do Antigo Testamento, sendo um judaizante que não conheceu a plenitude da revelação do Novo Testamento – Jesus; ou não ter entendido o argumento de Paulo, aos Romanos e Tessalonisences, sobre a ira Divina (descrito acima); talvez gostaria de ser juiz, ou pelo menos ser tão importante que “decreta” a agenda do juiz; ou ainda por mais ortodoxo que seja, não passa de um fundamentalista nos moldes dos religiosos da época de Jesus – que não O conheceram e que O mandaram para a cruz.

Em tempo, Deus não é um senhor velhinho, barrigudo, sorridente que passa a mão na cabeça de todos e diz: “não se preocupe!”. Antes Ele é Aquele que não cansa de chamar as pessoas ao arrependimento, Aquele que quer que as pessoas se preocupem com o seu estado de vida. E ainda é Ele quem irá castigar os não arrependidos, mas conforme discorremos acima, esse juízo não se manifesta agora, não dessa forma. Mesmo em termos apocalípticos, onde há muita discussão de interpretação sobre o livro de João, Deus, em um tempo de graça começa chamando as sete igrejas ao arrependimento. Mesmo você crer que a era dos selos, trombetas e taças começaram, ainda poderíamos discutir a morte de muitos haitianos justos. Ou argumento pior, desde que o mundo é mundo desastres acontecem. Então, quando começou a era apocalíptica? Jesus alertou que estes desastres aumentariam de proporções no fim dos tempos, mas Ele não alertou ser esse o julgamento de Deus; muito menos que apenas regiões “pecadoras” é que sofreriam estas calamidades.

Quarto ponto: Não existe fatalidade! Deus está por trás disso e está sendo injusto. Será?
Não existe obra do acaso – como o primeiro ponto deixa claro, mas existem coisas que aconteceram e vão acontecer, e os envolvidos ou vitimados não são agentes atenuantes e tão pouco agravantes. São o que os haitianos foram, o que as vítimas dos desastres aéreos foram, o que vítimas de enchentes e desmoronamentos foram: VÍTIMAS!

Existe isso? Sim! Isso não contradiz a Soberania Divina? Não! Há algumas vítimas que não conhecemos o nome, mas são citadas por Jesus: uns “galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam” e outros “dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou” (Lc 13.1 e 4). Jesus ainda pergunta: “Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas?” (v2). Seriam os pecadores haitianos piores que eu ou você?

Lição um: ao invés de julgamento com os de fora (a palavra nos manda julgar os de dentro da igreja – 1Co 5.12-13, os de fora cabe Deus), estendamos nossa solidariedade nos moldes do amor ao próximo e até aos inimigos, sendo a interpretação da Lei mosaica feita por Jesus no sermão do monte; Lição dois: arrependimento. Disse Jesus, duas vezes seguidas: “eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lc 13.3 e 5). O que realmente aprendemos? Que há fatalidades que estão sobre o controle de Deus, mas não são castigos de Deus, e ainda que todos devemos nos arrepender pois como a parábola da figueira que sucede o texto de Lucas, se não for achado fruto (de arrependimento) em nós, igualmente pereceremos. Em algum outro desastre? Talvez! Mas o maior desastre seria um dia ouvirmos: “Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.23), o castigo final, conforme visto no ponto acima.
Concluindo, porque já me alonguei demais. Os haitianos são tão pecadores quanto os brasileiros. Deus é Soberano sobre tudo, mas nem por isso tudo o que acontece é juízo. Fatalidades acontecem. Houve um “grande” líder evangélico que, ano passado quando enchentes devastaram Santa Catarina, disse que isso era juízo pelo pecado. Logo após, Minas Gerais (seu estado) de três em três meses é alagado. Seria por pecado também? E o interior de São Paulo? E a própria capital paulistana? E o Rio? E Angra? O Nordeste? E as nevascas na Europa? As enchentes na Califórnia? Queridos, o pecado atingiu toda a criação desregulando o planeta. Das duas uma: ou tudo é conseqüência do pecado no Éden; ou acharemos sempre alguma acusação para despejar sobre algum lugar devastado. O amor e misericórdia cristão esquecemos dentro da bíblia...

Vamos ser mais parecido com Jesus que veio para os pecadores ou com Jonas que preferia a condenação de Nínive?
Vamos ser mais parecido com Jesus que veio para os pecadores ou com Jonas que preferia a condenação de Nínive? Vamos ser mais parecidos com a Zilda Arns, com o rapaz com uma laje sobre os quadris, ou seremos um Pat Robertson, Gerge Samuel Antoine (cônsul do Haiti no Brasil). E onde está a igreja evangélica brasileira com seus milhões de reais gastos pagando horário nos canais de televisão e jatinhos?

Reações:

1 comentários:

Muito oportuno o texto, parabéns! Eu escrevi um artigo sobre as declarações do Cônsul, e postei para reflexão na minha Rede Social. Indagações de um afro-descendente à Pat Robertson e ao Cônsul haitiano.No link http://brasilmetodista.ning.com/profiles/blogs/indagacoes-de-um

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